O dia que rasguei minha bíblia

“Foi então que ela atravessou uma crise que nada parecia ter haver com a sua vida: uma crise de profunda piedade. A cabeça tão limitada, tão bem penteada, mal podia suportar perdoar tanto” (Clarisse Lispector)

Sei que o que vou falar neste texto, pode impactar muito, mas este relato não poderia ficar de fora deste espaço, pois esta questão foi que mais me causou conflito com minha separação: a minha fé. Logo aqui no início quero falar que minha intenção ao relatar essa vivência que tive, não é para causar polêmica ou qualquer tipo de sentimento negativo a quem for ler. Sei que muitos dos leitores desse blog são da religião que está presente na construção da minha história, pra ser bem exato desde que nasci, assim como muitos podem dizer que nasceram em uma família católica, eu digo que nasci em uma família evangélica, hoje não frequento nenhuma igreja, por muitos motivos, e alguns deles, eu irei relatar nesse texto, não todos, somente alguns, a decisão de deixar de frequentar uma igreja não foi por um ou dois motivos, tão pouco foi pelo divórcio, contudo ele foi o botão de start. A pessoa que mais me inspirava dentro dessa religião era meu pai, e apesar do pouco tempo que pude conviver, ele era minha referência de cristão. Falo isso pra mostrar que não tenho intenção nenhuma em difamar qualquer religião, muito menos a que meu pai seguia e na qual eu cresci.

A Bíblia descreve a fé como a certeza do que se não vê e a convicção de fatos que se esperam. Quando me separei minha mente estava igual a uma demolição, como no texto do dia em que tive uma visão, um caos, e eu olhava pra mim e todas as colunas que me sustentavam não estava mais em pé, mais destruídas. E uma coisa que eu não tinha era certeza de nada e a outra era que estava mais perdida que cego num tiroteio, não tinha uma direção para ir e nem sabia o que esperar, ou seja, zero de fé. E não saber em qual direção ir é uma das piores coisas do mundo para mim, eu sempre foco em algo e caminho naquela direção, e mesmo que às vezes eu mude essa direção, ou pare um pouco, e até mesmo mude de estratégia, o meu objetivo sempre está em meu campo de visão. E agora não tinha mais objetivo nenhum, nem direção nenhuma, pois todos os meus sonhos estavam voltados para minha família, estavam relacionados ao meu casamento, e agora eu não tinha nada disso. Toda experiência que vivi dentro da minha religião não tinha mais validade para mim e Deus era apenas uma persona inventada para pessoas manipular outras pessoas. Justiça não existia, nem a humana, que dirá a de Deus que não existia também. As experiências sobrenaturais que as pessoas falam que tiveram, e eu me incluo nisso, eram somente emoções. A bíblia era apenas um livro com vários ditados populares como “De Deus não se zomba, o que o homem plantar, ele ceifará”, zomba sim, pensava eu, olha aí, fez o que fez, e continua com a vida que levava. Mas esses pensamentos estavam em constante conflito com a fé que foi construída ao longo de todos os anos da minha vida. Tinha momentos que achava que eu iria enlouquecer e que minha mente não ia suportar tanto conflito. E pra não acontecer isso comecei a organizar meus pensamentos da seguinte forma: eu dizia para mim mesma que a vida é assim mesmo, existe injustiça no mundo, existem pessoas que enganam e manipulam outras pessoas em todas as esferas da sociedade, existem pessoas boas que irão viver uma vida toda difícil e pessoas não tão boas que vão morrer em uma vida muito confortável, não quero mais ficar pensando se Deus existe ou não, nem esperar que Ele faça alguma justiça pelo que houve (não achava justo o que estava passando). Dessa forma eu tive menos crises existenciais. Comecei a fazer terapia, fui melhorando, fui me permitindo viver, principalmente coisas que tinha vontade, mas não fazia porque minha religião tem como pecado, li o livro de Eclesiastes muitas vezes e que livro maravilhoso, é um livro te tira do mundo florido que muitas pessoas do meio cristão vivem; que te lembra de que você é ser humano cheio de defeitos e pecados, e que você não precisa ser perfeito.

Comecei a fazer terapia em março de 2020, fui ficando muito bem, mas aí uma série de situações não muito boas foi desequilibrando aquilo que já estava sendo ajustado. Apaixonei-me por um rapaz que não queria relacionamento sério comigo rsrs, até disse na terapia que estava feliz em estar sofrendo por outros motivos kkk. Comecei a namorar um rapaz que tinha conhecido na minha primeira graduação, já no namoro eu via que eu não estava pronta para relacionamentos, mas já tinha começado então queria ver como isso ia terminar. E como eu já esperava terminou rsrs. Em seguida meu ex-marido assume o relacionamento que tinha antes de nos separarmos, e até ai não seria um problema se não me atingisse e principalmente minha filha, mas como atingiu, tive que viver situações muito desconfortáveis, mas muito mesmo. Nesse tempo também, adoeci, e a suspeita era de COVID, passei duas semana isolada, não fiz o teste porque não tinha, mas fiz o RX do tórax, e como meu pulmão estava comprometido a médica me deu afastamento e os remédios que estavam receitando para amenizar os sintomas da doença. Minha amiga do texto anterior me ligava todos os dias, e isso me fazia bem, porque estava sozinha, sem falar ou ver ninguém. Quando estava me recuperando, já no final dessas duas semanas, foi agendado pela secretaria que trabalho, um dia para eu fazer o teste de COVID. Lembro que nesse dia eu acordei com um sentimento muito bom, de gratidão, olhei para o céu e comecei a agradecer, tudo que tinha passado, pelo que vivi no casamento, pelo divórcio, por não ter dado certo nenhum dos relacionamentos que tive depois do divórcio, por tudo que tinha, pelo meu carro, pelo lugar onde moro, pela minha filha, pelo amor dos meus familiares e amigos. Levantei, me arrumei e sai para fazer o teste, e não cheguei lá, sofri um acidente, meu carro teve que ser guinchado. Fiquei no carro até o SAMU chegar, o carro que causou o acidente fugiu e outro motorista que viu o acidente, foi atrás do carro anotou a placa e voltou para me socorrer. Minha irmã e minha amiga foram para o pronto socorro me encontrar lá, um amigo foi com um guincho buscar meu carro. Não me machuquei muito, mas tive um prejuízo grande com o carro. Acho que nesse dia eu iria morrer, mas não aconteceu e sempre que lembro, agradeço por estar viva.

Isso é algo bem resumido do que me aconteceu entre os meses de Maio e Agosto de 2020, e após tudo isso eu não aguentei e entrei em um episódio depressivo. Eu chorava todos os dias, tive muita dificuldade de trabalhar, pensei em pedir licença, e tudo que já estava se ajustando se desfez como num passe de mágica. E mais uma vez minha fé desapareceu. Em uma noite qualquer, quando estava sozinha em casa, eu imergi numa tristeza profunda, eu achava que não tinha perdoado meu ex-marido, e comecei a pensar que tinha que perdoar também a garota que ele teve um caso, pois também tive certa relação de amizade com ela. Fiquei tão desesperada em pensar na possibilidade de ter que orar e pedir ajuda para perdoar como fiz nos seis meses que fui para aquele culto, comecei a achar que nunca mais ia sair desse sofrimento, que meu choro foi cada vez mais se transformando em um alto pranto, busquei minha bíblia para ler algo que me confortasse e o conforto não vinha, e com a bíblia em minhas mãos comecei a rasgar página por página e assim como as pessoas descontam sua raiva em saco de boxe, eu rasguei toda minha bíblia. Em prantos, mandei mensagens para os pastores que conhecia da igreja que estava frequentando, comunicando que naquele dia eu tinha decidido a sair da igreja e assim eu fiz, eu já havia pensado várias vezes em tomar essa decisão, mas ela só veio quando tive essa crise. Os pastores vieram em minha casa conversar num outro dia. Conversamos e contei o máximo de coisas que me aconteceram dentro do contexto da igreja, que eram os principais motivos da minha decisão, e que nesse momento eu precisava experimentar a relação com esse Deus no qual eu constantemente duvidava da sua existência fora de qualquer religiosidade. Eles foram muito compreensivos e não me julgaram com nenhuma das coisas que disse. De mais cristãos assim que precisamos. Após esses acontecimentos, minha psicóloga pediu para eu falar com pessoas que passaram por situações semelhantes as minhas. Conversei com duas, foram conversas muito proveitosas e me ajudaram a tomar outra decisão importante e que acabou quase que definitivamente com todo sofrimento que tinha em relação a minha fé. Fiquei duas semanas sem carro depois do acidente. No dia em que fui buscar na oficina, quando estava dirigindo de volta para casa, fiz a seguinte oração: “Deus eu não quero mais sofrer por isso, a bíblia diz que nem a fé que temos vem de nós mesmos, então se você quiser que eu tenha fé em Ti, você me dará, se você não quiser, vou morrer sem acreditar, mas não quero mais sofrer por esse motivo”, e com essa oração eu decidi que não ia mais querer racionalizar o que não é racionalizável, que não ia mais querer ter certeza que Deus existe ou não, que não ia mais me preocupar se meu ex-marido e a pessoa com quem ele me traiu iam ou não colher as consequências dos seus atos, e foi uma das melhores decisões que eu tomei. Um tempo depois, não sei quanto, eu falei com Deus, vi que estava magoada com Ele, e nessa oração eu falei todas as minhas mágoas, disse para Ele que era mais fácil negar a sua existência do que assumir que estava frustrada com Ele, falei todas as minhas queixas do meio em que vivi e que queria me relacionar de forma diferente com ele. E assim, constatei que nunca deixei de acreditar. Passaram-se meses e quase um ano depois em uma conversa com um amigo, eu falei sobre Deus e sobre fé com ele e me emocionei, pois pude perceber o quanto isso já estava ajustado em mim.

Uma das coisas que falei para o meu amigo foi que o mais importante é ter Deus, não existe perfeição no ser humano, não adianta eu fazer isso ou deixar de fazer aquilo, sempre teremos falhas, erros, imperfeições, pecados, estando na igreja ou não. O que importa é crer que Deus existe. Uma das coisas que mais tenho aprendido com toda essa minha experiência de fé, e que não é maior que a de ninguém, diga-se de passagem, é que fé é única, assim como uma digital, nenhuma é igual. Sabe o que também não é igual? A forma como Deus se relaciona com as pessoas, cada um é um ser único e Deus fez assim, e assim Ele se relaciona, de forma única. Não adianta padronizar uma forma correta de agir para que Deus faça algo. Infelizmente é o que muitas igrejas acreditam e fazem. Muitos me diziam que eu precisava continuar indo em uma igreja, e que assim as coisas iam melhorar, isso pode fazer sentido para algumas pessoas, já ouvi relatos que foi em uma igreja que receberam a cura e o conforto necessário, mas para mim foi justamente o contrário disso, só pude melhorar quando me afastei. E se for pensar que Deus é um ser soberano, então tudo que aconteceu e a decisão que tomei não fugiram do seu controle, e foi ele que me tirou desse contexto, meio que na marra, porque insisti em frequentar uma igreja por um ano depois dEle já ter me tirado de lá (parando para refletir). Foi distante de qualquer religiosidade que me encontrei, que encontrei um norte, uma direção e voltei a ter esperança de dias melhores. Certa vez, conversando com a minha amiga, que ouviu muito todos os meus questionamentos, eu disse para ela que achava que não iria sobreviver, e que ia me perder desse caminho, ela me falou que eu não ia não rs, pediu para eu não desistir e sobreviver. Mas sabe o que aconteceu, não estou mais no caminho de antes e nem sobreviveu nada do que acreditava, então pude perceber “que quando a vida me virou do avesso eu descobri que o avesso é o meu lado certo”.

#crônicasdeumadivorciada 




Comentários

  1. Gostei demais do relato! 👏👏👏👏👏

    ResponderExcluir
  2. Parabéns... 👏🏻👏🏻👏🏻 Que lição vc está nos dando... 😘♥️

    ResponderExcluir
  3. Eu respeito teus sentimentos amiga e fico feliz que as atitudes que você tomou, trouxe alívio a sua alma. Isso é o que importa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada! Esse relato caberiam muito mais palavras, mas uma coisa é certa, os caminhos que Deus nos leva a percorrer podem parecer loucos para alguns, é algo que não deixo de acreditar é que tudo tem propósito nessa vida!

      Mais uma vez agradeço 🥰😍😘❤️🌼🌼

      Excluir
  4. As vezes nós olhamos para as pessoas e só vemos a ponta do aceberg, não conseguimos ver oque está por debaixo, seu relato é muito impactante. Ficou feliz por você está bem

    ResponderExcluir

Postar um comentário