O dia em que ele saiu de casa (parte 2)

No dia seguinte...

Dividimos a apresentação e ele percebeu que não estava bem, contei para meu amigo o que tinha acontecido, e depois que terminamos nossa apresentação, quando estávamos voltando, paramos em uma conveniência, compramos um picolé da kibom, o meu era de manga e o dele era de morango, e eu, mais uma vez chorei, ele estava saindo de casa naquele dia. Meu amigo, dizia que eu ficaria bem, mas entendia o que estava passando, pois também havia passado pela experiência da separação. Nesse mesmo dia fui buscar minha filha e fomos para casa da minha mãe. Quando voltamos para casa, e vimos que a casa estava vazia e sem as coisas do seu pai, ela não aguentou e começou a chorar. Ela chorou copiosamente e eu fiz uma pergunta a ela: -"O que eu podia fazer para amenizar sua dor?” e ela me respondeu: - “Pede para ele voltar”, então eu disse que não podia fazer isso e perguntei se ela entendia, chorando em meu colo ela confirmou com a cabeça e deitamos juntas na cama. Não sei se ela realmente entendeu naquele dia, mas sei que ela entendeu com o passar do tempo. Ela não parava de chorar e eu chorava com ela, e assim ela adormeceu nos meus braços. No dia seguinte era sábado e eu a levei para o salão de beleza e depois fomos para o boliche, eu precisava fazer algo que pudesse aliviar, mesmo que minimamente, o sofrimento dela. Estávamos tristes, nossos olhos não negavam, mas precisamos viver aquele dia da forma menos dolorosa possível, pelo menos acreditava desse jeito. No domingo, ela foi para casa do pai e eu fiquei só pela primeira vez em casa, foi terrível, mas sabe aquela amiga que me consolou no carro, ela foi à minha casa, levou café para mim, sentou no meu sofá e no seu colo eu me deitei e chorei. Meus amigos se revelaram nesses dias! A equipe em que trabalho foi muito além de colegas, foi o suporte que não tive em outros lugares. O tempo foi passando e quando toda equipe foi sabendo do acontecido, todos me deram apoio de diversas formas!  

Estou escrevendo esse texto e não tive como conter minhas lagrimas, não porque isso não esteja resolvido em mim, mas porque, como diz minha psicóloga, eu posso me emocionar com a minha história, de certa forma escrevendo esse texto, revivi momentos muito dolorosos, e as lágrimas descerem em meu rosto é praticamente inevitável. Esse sofrimento eu não desejo a ninguém, então torço para que casais que realmente se amam permaneçam juntos se isso for possível. Pra mim não foi, e tive que encarar a dura realidade do divórcio. E foi encarando essa realidade que minha visão sobre ele foi se modificando. Hoje não enxergo como um pecado ou a pior coisa do mundo. Tem certas situações que são inevitáveis, quando perdemos nossa essência, quando vivemos em relacionamentos abusivos e quando só um se esforça e trabalha para que dê certo. Vida a dois, já está dizendo é a dois, não é a um com o outro nas costas! Ninguém merece viver em nenhuma dessas situações para sustentar um relacionamento por causa de uma cultura de que casamento é para sempre. Foi no pensamento dessa cultura que fui me permitindo ser machucada e ferida ao ponto de ter a sensação de que não conseguiria sobreviver ao fim de tudo. E isso não é exagero, era um sentimento muito real em mim, que não sobreviveria. Sempre vejo pregações, palestras, estudos e coisas do gênero, que enfatizam como fazer para conservar a união entre um casal, e isso é muito válido. Mas, fico pensando, que as pessoas que não conseguiram permanecer em um casamento são de certa forma, esquecidas, as vezes até estigmatizadas. É muito fácil encontrar ajuda quando o casamento não está indo bem, sempre temos conselheiros e vários livros escritos para esse fim. Mas não temos com tanta facilidade apoio quando a separação foi inevitável. Dentro das igrejas, onde muitas vezes procurei socorro, muitas vezes ouvia frases como: “vem e veja o que Deus vai falar com você”, “não estamos preparados para isso”, “o melhor que você faz é procurar ajuda profissional”, "você não pode perdoar?". Não existe nenhuma palavra direcionada ao problema, e muitas vezes tratam o divórcio como a opção mais fácil, que as pessoas se separam por qualquer motivo hoje em dia! Ninguém casa pensando na separação! E se hoje o índice de divórcio tem aumentado é porque cada dia mais a mulher tem se tornado independente, e realmente não precisa viver infeliz no casamento! Talvez muitos não tenham a mesma opnião que a minha, e nem é meu objetivo convencer ninguém de qualquer coisa, estou apenas relatando o que vivi e o meu olhar diante dessa situação. Bom, eu fui à busca de ajuda profissional, mas até chegar a alguém que realmente pode me ajudar, a busca foi bem frustrante. Fui a igrejas que ofereciam serviços de atendimento psicológico, me inscrevi, mas até hoje não recebi nenhuma ligação de todas que me inscrevi. Fui para atendimento psicológico do plano de saúde, que também não consegui me adaptar, um dos motivos é que tem apenas 30 minutos de atendimento, e não tem profissional que possa desenvolver um bom trabalho com esse tempo, outro motivo é que nem sempre nos adaptamos logo com o primeiro profissional em que vamos, assim foi comigo. E uma frase que sempre escuto da minha psicóloga é que podemos desistir do terapeuta, mas não da terapia. Então até eu receber ajuda realmente efetiva, percorri longos dias de sofrimento. Sem contar que pouco podia ajudar minha filha. Muitas vezes ouvia que eu devia ser forte para ajudar minha filha, mas como que mal conseguia ser forte para mim mesma? Hoje acho que trabalhamos juntas, mesmo sem combinar nada. Trazíamos o mínimo de estresse uma a outra, e muitas vezes tanto eu quanto ela compreendíamos os motivos de certos dias não serem tão agradáveis. Hoje eu sei que foi a melhor coisa que me aconteceu, como disse estou bem melhor hoje divorciada do que antes casada, mas até chegar a esse entendimento passei por um sofrimento que não desejo a ninguém e não pretendo passar outra vez.

Esse texto foi muito difícil de ser escrito, e o que digo, nem de longe, é uma verdade absoluta, eu não sou a única divorciada do planeta, existe inúmeras histórias diferentes da minha, umas mais leves e tranquilas, outras histórias mais tristes e pesadas. Estou contando algo singular, que muitos podem se identificar e outros talvez não. A verdade de hoje para mim é que ninguém além de nós mesmos sabe o tamanho do nosso sofrimento, e quão importante é ter consciência que podemos ouvir conselhos e até mesmo soluções para o nosso problema, mas somente nós mesmos vamos decidir como devemos viver e as nossas escolhas precisam ser aquelas que nos trazem mais benefícios do que prejuízos. Vivi a escolha do divórcio com esse entendimento. E isso é mais uma coisa de que não me arrependo!!! Sou feliz com a minha escolha!!!



Comentários

  1. Nossa eu me emocionei , sempre tem um pouco da nossa história na história de alguém né? Encontrei um pouco da minha vida ai na sua.Gostei muito do texto, você é boa nisso.👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻😘

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  2. Parabéns! Lindo texto! Sua história pode e deve virar um livro!❤️

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  3. Que texto !!! Uma das coisas mais dolorosas é o divórcio mesmo que seja em comum acordo. Te admiro vc foi forte vc é forte.

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