O dia em que eu sai de casa

Antes de me casar eu morava em uma casa no bairro na zona norte de Manaus. A casa era pequena, tinha um quarto, um banheiro, uma sala junto com a cozinha e um quintal que estava mais para uma área de serviço. Quando me casei minha mãe mudou-se para Brasília e eu fiquei aqui em Manaus, nesse período ainda estava terminando minha primeira graduação. Fizemos, com a ajuda dos meus sogros, uma pequena reforma na casa, mas nunca chegamos a morar lá juntos. Vendemos a casa e compramos outra no Conjunto Nova Cidade, e lá vivi treze anos da minha vida, doze casada e um ano divorciada.

Uma das coisas que mudou na minha vida quando me casei, foi que com a mudança para esse bairro, pouco via meus amigos e família, minha vida era outra agora, e com isso me sentia muito sozinha. Neste ano, também, fiquei sem emprego e ficava só em casa o dia inteiro e parei de estudar. Só terminei minha primeira graduação depois que tive minha filha, ela tinha um ano, isso foi em torno de três anos depois que me casei. Nesse contexto conheci uma amiga que tem sido uma companheira em todos os momentos da minha vida, bons e ruins, no casamento e na minha separação. Depois do divórcio vivia numa montanha russa de sentimentos, tinha dias que pensava “Pronto, estou bem, agora às coisas vão melhorar!”, já em outros me sentia um trapo humano e vivia situações muito desastrosas. Quando me sentia desse jeito tinha uma vontade enorme de sair de casa. Mas, para onde iria? Nos dias que minha filha passava na casa do pai, às vezes eu ia dormir na casa da minha prima, outras vezes na casa da minha irmã. Sim, teve inúmeras madrugadas que ia parar lá na casa dela, outras vezes eu saia por aí de carro sem parar em canto nenhum, eu não conseguia ficar na casa onde passei os anos mais infelizes da minha vida e onde me sentia aprisionada. Muitas vezes minha mãe e irmã me diziam pra eu sair da casa, mas eu dizia que aquela era minha casa, e lá eu ficaria, não podia deixar minha casa. Enfim, errado ou não, era esse o meu pensamento.

A insônia batia na minha porta todas as noites, assiduamente! Comecei a sair com outras amigas, e comecei a beber. Eu bebia para dormir, comprava vinho, skarloff e cerveja, a bebida me dava tanto sono, que nos dias que minha filha não estava em casa era assim que conseguia dormir, bebendo. Outras vezes tomava remédio, dorflex que também me dá sono. Não acho que beber seja um problema, mas se você não estiver no controle, para se tornar um vício não precisa de muito, percebi isso, e não me deixei levar pela vontade. Em uma noite de domingo, conversando com essa minha amiga pelo celular, eu decidi sair de casa, e a inquietação era tão grande que nem planejei nada, encerrei a conversa com ela, peguei uma mala grande, coloquei minhas roupas e as da minha filha, peguei algumas coisas que julguei que iria precisar e sai de casa. Minha mãe tinha se mudado recentemente para a casa que era da minha avó e como a casa é grande, pedi para ficar em um quarto com a minha filha. Isso foi em maio de 2019. Planejei ficar lá até o fim daquele ano e depois procurar um lugar para mim. No entanto, tem coisas que acontecem conosco que não planejamos. Nesse tempo fiz minha primeira tattoo, rsrs. Já escrevi sobre isso. Já estava a duas semanas morando com a minha mãe quando chegou mensagem no meu celular, através de uma lista de transmissão, a oferta de um apartamento no qual estou morando agora. Na semana seguinte falei com o proprietário, marquei uma visita e fechei o negócio. Mudei-me mais uma vez. Fui buscar as coisas que tinha deixado na minha casa, minha amiga foi comigo, ela tem uma pick-up e íamos fazer a mudança toda nela, provavelmente umas três viagens, porém fui a um mercado comprar material de limpeza e lá encontrei um rapaz que tinha um caminhão baú, perguntei quanto eles faziam o frete, acertei com ele para levar as coisas maiores, geladeira, fogão, máquina de lavar, cama, guarda-roupas, essas coisas. Na pick-up da minha amiga levamos as coisas menores, o resto das minhas roupas, móveis pequenos, e algumas panelas, todo resto joguei fora. Eu, minha amiga, a irmã dela e um maluco do bairro, nós quatro fizemos a mudança, tinha um sol pra cada um de nós nesse dia de tão quente, nesse dia também, comemos no rei do churrasco. Nesse dia eu estava feliz.

Quando decidi sair de casa, quando coloquei minhas coisas em uma mala e abandonei todo o resto, casa e móveis, tive uma maravilhosa sensação de liberdade! Parecia que correntes tinham se quebrado com aquela ação. E quando fiz essa mudança para o lugar que moro hoje, era como se sentisse uma brisa fresca no rosto depois de ter passado anos encarcerada. Depois disso consegui uma bolsa e comecei a estudar psicologia, comecei a planejar uma viagem com minha filha ao Rio de Janeiro e fui conhecer a cidade maravilhosa. E esse é o ponto que quero chegar. Não dá para ter resultados diferentes agindo da mesma forma. Não podemos esperar que as coisas mudem, se não mudamos nossa forma de pensar e de agir. Se quisermos resultados diferentes, se queremos viver coisas novas, se queremos que as coisas mudem, quem precisa mudar primeiro somos nós. Sou professora, mas trabalho atualmente como assessora de gestão da secretaria municipal de educação, e o meu trabalho está relacionado a metas e estratégias para melhoria dos resultados educacionais. Eu vivo isso na minha prática profissional e eu precisava viver isso no meu contexto pessoal. Eu esperava que Deus viesse e mudasse meu marido, mas sabe o que aconteceu? Não mudou, ninguém muda se não quiser. Eu esperava que Deus restaurasse meu casamento, mas sabe o que aconteceu? Eu me separei! Casamento só dá certo se os dois quiserem a mesma coisa, casamento só dá certo se há amor das duas partes. Casamento que um ama mais que o outro nunca deu e nunca dará certo na vida. Já falei isso em outro texto, e ratifico agora, eu precisava ter consciência de mim e escrever a minha história de próprio punho. Vivia a vida baseada na seguinte frase: “se for da vontade de Deus eu faço isso”, e vivi uma vida infeliz julgando que a escolha que fiz em permanecer em uma relação medíocre era a vontade de Deus. Eu vivia uma vida conforme a letra do samba do Zeca Pagodinho: “deixa a vida me levar, vida leva eu, sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu”. Hoje não quero mais viver dessa forma, não mais. Acredito que sim, que a felicidade e a gratidão pelo que tenho e o que Deus tem me dado, deva fazer parte de mim e faz. Mas eu entendi que preciso escolher como e com quem vou viver minha vida e escrever minha história. O ser humano é dotado de livre-arbítrio, e isso é precioso, mas de certa forma, é mais cômodo transferir esse poder a um ser superior para o caso de que se nossas escolhas não derem certo, temos a quem culpar. O livre-arbítrio é algo poderoso e é preciso coragem para usá-lo, porque quando fazemos nossas escolhas precisamos assumi-las, querem elas deem certo ou errado. Isso tudo falo por mim, era mais fácil pra mim, depositar o poder de escolha a Deus, e quando as coisas não funcionavam, era mais fácil também dizer “não foi da vontade de Deus” do que assumir que foi uma escolha errada ou que não agi de forma para que aquilo funcionasse. E aí, além de mim, já ouvi muitos relatos que quando as coisas se tornaram muito desastrosas, até aceitar que a vida é assim mesmo, que o sofrimento existe, culpam a Deus por todo desastre. O sofrimento é inerente ao ser humano, faz parte da nossa fisiologia e anatomia. Não vou me aprofundar nisso, porque esse não é um texto de um artigo científico, mas sofrer faz parte da existência humana e se formos analisar esse fato com as lentes da fé, foi Deus que fez desse jeito. Deus não criou a dor de parto quando Eva pecou, o que é dito é que Deus multiplicou a dor que já existia. Também não quero me aprofundar nessa questão, são apenas exemplos que o sofrimento faz parte da vida, e muito sofrimento vivido são escolhas feitas por nós. Inclusive quando decidimos transferir o poder de escolher a quem seja também estamos fazendo uma escolha e vamos viver os resultados dela, bons ou ruins. Eu entendi isso, nessa plenitude, depois que passei pelo sofrimento do divórcio e hoje não sou mais alguém na prateleira esperando que me escolham, eu escolho também, e assumo também tudo que decidir viver.

#crônicasdeumadivorciada








Comentários

  1. "A verdadeira felicidade só se da quando você descobre quais problemas gosta de ter é de resolver".

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    1. Verdade verdadeira! rsrs! Obrigada por acompanhar minhas publicações! 🥰💕💕💕

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  2. 👏👏👏👏❤️amei o texto, parabéns.

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  3. Como amo teus textos... e lembro dessa fase de sua vida... em que eu passava meus desertos e nem imagina que vc vivia os seus! Eu me considerava tão fraca... e te achava tão forte e batalhadora... quando eu ficava triste em vê meu marido até altas horas na rua com nossos vizinhos... e detalhe em frente a sua casa jogando dominó ... lembra ? Rsrsrs Eu admirava vcs como casal... unidos na fé ... trabalhando e servindo a Deus... como eu queria aquilo pra mim ! Chegamos juntas naquele bairro, praticamos casamos na mesma época e tivemos nossos filhos também ao mesmo tempo! Era o começo de uma vida a dois para nós ... Enfim! Ainda lembro de uma frase que vc me falou na época quando eu me lamentava pra vc... Vc disse pro seu esposo na época que muita coisa vc não fazia por temencia e obediência a Deus e não era por outra coisa ... somente por Deus! Esse aprendizado carrego até hj comigo.... porém mais madura e consciente que Deus nos ama e jamais vai nos abandonar! Adoreiiii o texto ! Beijos bonita 😘😘😘

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    1. Lembro de tudo! rsrs! Apesar de ter sofrido bastante com minha escolha de permanecer no casamento! Não me arrependo, pois vivia de forma verdadeira aquela fase, minha fé não era fingimento! E apesar de as coisas não terem saido como eu esperava, vejo o cuidado de Deus em todos os momentos! E o que é bom, é que sempre temos algo a apreder e a crescer nas nossas experiências vividas. Obrigada por acompanhar minhas publicações! Você é incrivel!💕💕💕

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  4. Que Deus continue abençoando e operando a transformação que você precisa para estar cada dia melhor.

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  5. Parabéns amiga. Feliz por vc. Bjss

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  6. Amiga eu me identifico muito com.nteus textos e fico feliz com sua evolução.
    Você não sabe, mas tem me inspirado muito!
    Obrigada por compartilhar sua experiência 😊😘

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    1. Fico feliz de verdade em ajudar, mesmo que minimamente, de alguma forma! Obrigada por acompanhar minhas publicações! Obrigada por se sentir feliz com minha evolução! Muito obrigada mesmo! 💖💖🥰🥰

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  7. Que massa....um prazer reencontrá-la. Sou a Polly

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    1. Oi Polly quanto tempo! Obrigada por visitar o blog! Um grande abraço! 🌹🌹🌹

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  8. Que linda volta por cima, me identifiquei bastante com seu texto e não tem nada melhor que a sua liberdade ❤️

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  9. "Minha mãe me disse, filho vem cá" muito bom

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