O dia que cozinhei feijão

Se me perguntassem que bandeira você levantaria, eu não levantaria bandeira política, não que eu não ache importante, mas não, também não levantaria bandeira religiosa, nem de defesa dos animais, se eu fosse levantar uma bandeira seria a da terapia! “TERAPIA PARA TODOS JÁ” kkk. De certa forma já estou fazendo isso, se não explicitamente nos outros textos, nesse com certeza, afinal tenho contado para você uma grande parte do meu processo terapêutico! Acredito que se todos fizessem terapia teríamos menos problemas em todo e qualquer tipo de relacionamento. E você deve está se perguntando e o que isso tem haver com o título do texto, não é? Se eu estivesse lendo esse texto com certeza estaria me perguntando. Cozinhar feijão é uma coisa tão corriqueira, não é verdade? Que isso tem haver com separação, divórcio, terapia? Vou explicar. Talvez o texto se torne um pouco longo porque vou tentar contar com mais detalhes algumas coisas que dizem respeito a mim.

Tenho alguns interesses desde criança, são eles: sempre gostei de ler, mas o hábito se consolidou na adolescência, gostava também de escrever, mas na escola alguns professores não achavam muito boa minha redação. Uma das coisas que mais gostava de brincar na minha infância era de escola e eu sempre era a professora kk. Outra coisa que sempre me interessei era dança, dancei em festa junina quando era criança e uma vez na escola fizeram um concurso de lambada e adivinha quem ganhou? Também desenhava, e gostava de fazer, eu via um objeto e fazia um desenho bem feito. Teatro também me chamava atenção, quando morei com a família do meu pai em Campo Grande, me apresentei no teatro municipal pela minha escola e ganhamos também rsrs, além disso, tinha apresentação do grupo de teatro no intervalo das aulas. Eu amava! As peças eram histórias de Monteiro Lobato e eu era a narizinho. Também nessa época e nessa mesma escola, despertei meu interesse por esporte, entrei para o time de basquete kkk eu era boa, mas não segui carreira de atleta por um simples detalhe: falta de altura. E uma das coisas que sei fazer e que desde criança sempre me interessei é cozinhar. As pessoas próximas a mim sabem disso. Acredito que já deu para perceber como construí minha vida a partir dos meus interesses. Hoje sou professora de educação física, não tinha dança na época que fiz o vestibular, mas dancei no grupo da faculdade por muito tempo. Na igreja sempre me envolvi com arte, dança e teatro, num tempo que dança na igreja ainda era um sacrilégio, passei muitos desafios à frente desse trabalho. Dentro da faculdade trilhei o caminho da licenciatura. Outra coisa que aprimorei foi o desenho, fiz muitas artes gráficas, mesmo que amadoras. Enfim, tudo que desperta meu interesse eu tento pelo menos ter um conhecimento básico kk. Tenho uma amiga que diz que eu sou um “cri cri” quando quero aprender alguma coisa.

Como falei sempre tive interesse em cozinhar e quando eu tinha sete anos pedi para minha mãe me ensinar a fazer arroz com cenoura e isso foi a primeira coisa que aprendi a cozinhar. Perdi meu pai nesse mesmo ano em que aprendi fazer arroz, e desde então eu, minha mãe e irmãos passamos por situações bem adversas. Morei grande parte da minha infância e adolescência com minha querida avó, que perdi um ano antes da minha separação, e uma das coisas que ela fazia divinamente bem era cozinhar! Sempre ajudava nos preparos dos pratos deliciosos que ela fazia, e ficava de olho em tudo. Minha avó era uma mulher muito admirável e inteligente, de certa forma ela me inspirava a ser independente e trabalhadora, mas nós tínhamos vários choques de personalidade (eu era a rebelde da família, lembram?). Mas tinha algo que sempre me aproximava dela, a cozinha, como tinha interesse e ela nunca se recusou a passar seu conhecimento e sabedoria a quem pedisse a ela, nunca me negava seus ensinamentos quando pedia para me ensinar a cozinhar. E ao longo dos meus 23 anos eu fui aprendendo a fazer muitas coisas na cozinha, vendo-a cozinhar ou pedindo que ela me ensinasse. Minha mãe que também cozinha muito bem e também me ensinou muito. Quando me casei com 23 anos, sabia fazer praticamente tudo menos feijão. Depois que me casei, sempre que queria aprender a fazer alguma coisa ligava para minha avó e dizia “vó me diz como faz isso?” e pelo telefone ela me ensinava a fazer, e do jeito que ela me ensinava eu fazia e ficava muito gostoso. Tinha vezes que ela dizia “Ah! Isso aí é melhor você vir aqui e me ver fazer” e assim combinávamos um dia, eu ia e ela me ensinava. O prato preferido do meu ex-marido é feijão se ainda não mudou. E feijão era a única coisa que não sabia fazer, e então pedi para minha avó me ensinar e esse foi um dia que fui lá para vê-la fazer. Ela me ensinou e eu aprimorei haha, modéstias a parte, meu feijão é muito gostoso. Eu aprendi a fazer feijão, com a minha avó, para agradar meu então marido. Em 2016 vivi em uma profunda tristeza! Fechei-me para o mundo! Mergulhei no mundo dos livros, tudo para fugir da realidade que causava tanta dor, aliás, vivia isso desde 2015 e em 2016 essa tristeza se intensificou. Eu sentia dores no corpo, até hoje não sei com que forças eu me levantava para trabalhar. Mas ia, chegava à escola em que trabalhava, dava a minha aula, quando terminava o turno eu subia entrava em uma sala e começava a chorar, chorava em torno de uns trinta minutos, enxugava minhas lágrimas e ia buscar minha filha, praticamente todos os dias. Uma das pessoas que me via e que me ajudou muito nesse ano foi uma professora que também trabalhava lá e que se tornou uma amiga muito querida e que tenho um carinho imenso, por ela e seus filhos. Ela me ouvia, me via chorar, falava que achava que estava em depressão e que era para procurar um psicólogo, uma ajuda profissional, e no final de tudo orava comigo. Eu estava muito infeliz, e sem perceber fui deixando de fazer coisas que sempre gostei, deixei o trabalho que fazia com a dança em 2015, cinema um dos meus momentos de lazer favoritos, com ou sem companhia, perdi todo e qualquer interesse, bem antes da pandemia quando os cinemas fecharam, já não fazia mais isso, nem via filme em casa com mais tanta frequência, comecei a parar de cozinhar sempre que tinha oportunidade de não cozinhar, quando cozinhava era por obrigação, não por prazer, fui parando de fazer feijão. Isso se intensificou quando recebi a notícia do falecimento da minha avó em 2017. Não conseguia mais cozinhar com prazer e quando comprava feijão se estragava na dispensa e ia para o lixo. Em 2018 me separei e continuei a cozinhar por obrigação, se não a gente morre de fome, mas cozinhava principalmente quando minha filha estava em casa. Nos dias que ela não estava eu comia coisas que não precisava cozinhar ou que não exigiam muito trabalho. Parei de comprar feijão porque sabia que não ia conseguir cozinhar e era só mais um saco que iria para o lixo. Eu parar de cozinhar o feijão não foi algo que fiz de forma consciente, não foi uma decisão pautada em motivos, foi sem eu perceber mesmo. Existiam coisas que tinha consciência que havia deixado de fazer por causa da tristeza que se instalou em mim, como ler, desde 2017 eu tenho muita dificuldade de abrir um livro para ler, coisa que fazia em qualquer lugar e qualquer hora, ler a noite fazia eu perder o sono para ter uma ideia do quanto gostava de ler, minha filha tem o mesmo gosto e ela diz que a culpa foi minha de fazê-la gostar assim como eu, mas hoje não preenche os dedos de uma mão a quantidade de livros que leio por ano, tenho trabalhado isso no passo da tartaruga nas minhas sessões de terapia. Enfim, todas as coisas que sempre me deram prazer em fazer, não tinha mais. Mas quando comecei a fazer a terapia e fui tendo as primeiras melhoras, fui ao supermercado e tive vontade de comprar os ingredientes para fazer feijão, eu achei muito estranha aquela vontade, e disse para mim mesma “isso é só fogo de palha, pare com isso que você só vai gastar dinheiro” e assim não comprei. Mas essa vontade não passou, voltei ao supermercado e comprei. Isso foi tão importante para mim que gravei a data, no dia 11 de maio de 2020 eu cozinhei feijão depois de quase três anos sem fazê-lo. Tirei foto e mandei para minha amiga saber do milagre que estava acontecendo rsrs. Contei isso na terapia e ela me pediu para escrever sobre o fenômeno do feijão. Escrevi, e nisso percebi que eu tinha deixado de fazer feijão por dois lutos, um que era o da minha avó e o outro que era o fim do meu casamento.

O fato importante aqui é que apesar de parecer uma coisa tão pequena, como cozinhar feijão, eu venci um bloqueio, uma trava, um trauma. E aos poucos tenho vencido um a um e resgatado minha essência. Agora, recentemente, no dia 05 de junho de 2021, fui para uma aula de dança, e estava muito empolgada em ir, com sentimento de satisfação e felicidade. Já havia tentado voltar a dançar, mas não me gerava prazer nenhum, o contrário disso me gerava um sentimento muito negativo. Tenho motivos relacionados a minha separação, mas que não valem a pena citar. Nesse sábado do dia cinco completou três anos do dia que tudo na minha vida começou a mudar, e eu estava feliz em ir a uma aula de dança. E como foi boa. Fiquei pedida, fazem mais de seis anos que não danço, mas estava feliz, fiz aquela aula sem peso na alma. Tenho voltado aos poucos a ler, tenho feito posts no Instagram e até convites de aniversário, pra quem sentia um turbilhão de sentimentos ruins só de alguém pedir para eu fazer uma arte. Entrei para o Tik Tok com a intenção de ficar de olho na minha filha, era um app novo e ela estava lá, eu precisava cuidar dela, haha só não contava que ia me viciar hahaha, e assim de certa forma com as dublagens o “teatro” tem voltado a fazer parte da minha vida. Quando me vejo fazendo coisas que há algum tempo me geravam sentimentos negativos eu consigo medir minha melhora, como se fosse um termômetro. E tenho visto como tenho melhorado, não só externamente, mas principalmente, internamente, que deve ser a parte mais importante. E isso eu devo a terapia. Parece que conforme vou fazendo meus pensamentos e atitudes se tornam mais coerentes. Sabe terapia não é algo fácil de fazer. Sempre que agradeço a minha psicóloga eu ouço ela me dizer “isso também é mérito seu, por estar empenhada nesse processo”. A terapia é algo que não faço quando dá, eu tenho como um compromisso comigo mesma. A terapia nem sempre é fácil porque é um processo de autoconhecimento e nisso vamos nos deparar com questões nossas que não nos agradam muito. Vamos ter que expor sentimentos que fazemos questão de escondê-los. Sempre vejo as pessoas falando sobre cuidar da saúde indo a médicos e academias ou fazendo qualquer outro tipo de atividade física, e estão corretíssimas, mas isso é nossa saúde física, e a nossa saúde mental, onde fica na nossa lista de prioridade? Eu sei que fiz disso uma prioridade para mim, o meu momento, e isso tem gerado uma grande transformação do meu ser. A minha amiga que muitas vezes me via chorar na sala dela depois do nosso turno de aulas, falou para mim neste ano a seguinte frase “quanta transformação, quantas borboletas saíram desse casulo minha amiga”. Sim muitas transformações, muito resgate de mim mesma tenho feito durante esses quinze meses de terapia. Toda essa transformação, toda essa ressignificação da vida eu devo a terapia. Foi graças a ela que estou escrevendo neste blog. Então, sim! Levanto a bandeira da terapia. Que todas as pessoas possam ver o quanto de benefícios ela traz para si. Um lugar de autoconhecimento, de acolhimento e onde podemos falar sem sermos julgados. Estive pensando por esses dias que cada pessoa tem seu brilho, tem uma luz própria, acredito que essa luz está intimamente relacionada ao seu propósito de vida, a sua essência, àquilo que a pessoa tem paixão e faz com muita habilidade e prazer. Que possamos trilhar o caminho que nos leva a encontrar nosso brilho, nossa luz própria e quando encontrarmos, que tenhamos a coragem de brilhar!

#crônicasdeumadivorciada













Comentários

  1. Ai, Ana, fiquei emocionada lendo o texto de hoje, porque presenciei alguns anos difíceis pra você e hoje vejo o quanto você é outra mulher, e tão mais feliz. A terapia com certeza surtiu muito efeito!

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    1. Sim, você viu um período muito difícil para mim! E aquela escola era um lugar que gostava de estar, pelas pessoas que trabalhavam comigo, e você é uma dessas pessoas! Obrigada pela amizade! 🥰🥰🥰😘😘😘🌹🌹🌹💕💕💕

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