O dia que queimei a carta

Recentemente, estava pensando em quando esse blog movimentou minha vida, muito mais do que imaginava, e nesse pensamento pude constatar que não tenho mais nada a dizer sobre meu divórcio. Resolvi que não ia mais escrever sobre isso, pois tudo que tinha para falar já foi dito, pensei em dizer isso no texto anterior a este, falando que podemos vencer nossos bloqueios e assim vamos vivendo, algo desse tipo. Foi então que me lembrei de um dia importantíssimo que não poderia de forma alguma ficar de fora desse blog. E cá estamos na última crônica dessa divorciada, e quero lhe dizer que estou com um sentimento de muita satisfação em está escrevendo esse texto e contando essa última história para você, e minha vontade é que você possa sentir essa mesma satisfação ao ler. Acredito também que este episódio é bem propício para ser o último sobre este assunto.

Pouco tempo depois do meu episódio depressivo, ainda meio anestesiada daquele turbilhão de emoções, minha psicóloga pediu para escrever uma carta para meu ex-marido dizendo tudo que sentia, tudo que gostaria de falar a ele, e disse que poderia ou não enviar, mas que fizesse isso para que eu fechasse esse ciclo, que virasse a página. Eu decidi que ia fazer, mas tem uma coisa que preciso te falar, isso que escrevo, principalmente sobre meu processo terapêutico, não é uma fórmula mágica para resolver as questões de outras pessoas, acredito que já deu para perceber que é algo muito peculiar, muito singular. Cada um é de uma forma e cada um tem seu tempo, e eu tinha o meu, demorei a escrever essa carta, passaram dias, semanas e não sei quanto tempo depois desse pedido da minha terapeuta que eu me sentei e escrevi. Depois que escrevi eu resolvi fazer algo diferente com aquela carta, desde o princípio eu não cogitava de forma alguma em enviar a carta ao destinatário, então tive a ideia em fazer um ritual, rs, queria queimar e enterrar a carta como se estivesse enterrando meu passado. E foi assim que comecei a planejar o enterro, kkk. Escolhi a música, mas precisava de um lugar e uma testemunha. Falei com a amiga que disse a frase célebre “Permita-se viver!”. Ela não se recusou, disse que ia comigo. Mas ainda não tinha escolhido o lugar e também precisava ver um dia que ela pudesse. Tenho certo receio em incomodar, fazer qualquer pessoa sair do seu conforto para fazer algo por mim. Então, não falei mais com ela sobre isso. Fiz o mesmo convite a minha amiga que acompanhou minha vida antes e depois do divórcio, mas também tive o mesmo receio de está incomodando, assim como a minha prima que também fiz o mesmo convite, nenhuma delas se negaram, mas não consegui marcar com elas para realizar o ritual. E essa carta ficou bolando muitos dias pelas prateleiras da casa. Até que um dia eu resolvi que não ia mais adiar isso, resolvi fazer no dia seguinte porque uma amiga minha ia vir em casa. No dia seguinte ela chegou, não falei nada a ela. Passamos o dia juntas, organizando a casa e conversando muito como de costume. Então no fim do dia quando ela estava para ir embora eu disse a ela que queria fazer algo e precisava que ela fosse minha testemunha. Sentamos de frente uma para outra, eu peguei a carta e disse que aquela carta era para meu ex-marido, dizendo tudo que queria falar para ele. Disse que ia ler a carta e que depois ia queimá-la e colocar um ponto final naquela história. Deixando de vez meu passado para trás. E assim fiz, li a carta e chorei bastante ao ler, ela também chorou, depois fomos para a pia da cozinha e queimamos a carta. Ela resolveu pegar a carta e colocar dentro da pia e ao fazer isso a carta encostou-se ao dorso de sua mão fazendo uma queimadura. Enquanto a carta queimava eu recitei a letra da música que tinha escolhido para fazer aquele ritual. Diz assim:

Triste, louca ou má
Será qualificada
Ela quem recusar
Seguir receita tal


A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina


Só mesmo, rejeita
Bem conhecida receita
Quem não sem dores
Aceita que tudo deve mudar


Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar


Ela desatinou, desatou nós
Vai viver só
Ela desatinou, desatou nós
Vai viver só


Eu não me vejo na palavra
Fêmea, alvo de caça
Conformada vítima.


Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar


E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar


(Francisco, el Hombre)

Depois disso ela me abraçou e me disse palavras em que meu coração encontrou conforto. No dia seguinte ela me mandou uma foto da queimadura da sua mão, e ao ver parecia a letra F. Que seja F de uma história que chegou ao fim.

Como disse no início do texto, não vejo nada mais propício contar este dia para você no último texto que falo sobre meu divórcio. Ao escrever a carta eu tive uma melhora considerável nas minhas emoções e de todo aquele episódio que vivi. Quando queimei a carta, realmente parecia que tinha enterrado essa história. E quando decido escrever nesse espaço sobre meu luto e meu processo terapêutico e finalizar a escrita sobre esse assunto, sinto muitíssimo que tudo que vivi ficou num passado distante, que não será apagado jamais da minha história, mas é um ciclo que se encerra, assim como tudo na vida que tem seu começo, meio e fim. Assim como diz o trecho da música, prefiro queimar o mapa e traçar de novo a estrada, enxergar cor nas cinzas da minha história e reinventar a vida. Não quero parar de escrever, acredito que encontrei uma nova paixão, um novo amor, no entanto, quero contar outras crônicas, relatar outros acontecimentos, escrever outras histórias. Como uma boa sagitariana que sou, estou sempre em busca de viver coisas novas, viver novas aventuras mesmo que seja dentro de uma rotina, conhecer lugares, comidas e pessoas diferentes. Só podemos viver algo novo se abrirmos mão do que é velho e que não faz mais sentido para nossa vida, e hoje chegou ao ponto que escrever sobre isso não fazer mais sentido para mim, porque sou sim uma mulher divorciada, mas também sou inteligente, bonita, legal, companheira, trabalhadora, responsável, amiga, confiável, sou uma boa mãe, sou muitas coisas, já falei sobre isso, mas vale ressaltar que não sou definida por um único acontecimento na minha vida, um homem não vai me definir, minha casa, minha família não vai me definir, minha carne, o meu corpo não me define, sou meu próprio lar. Acredito que estou em uma jornada de me conhecer e reconhecer, quero descobrir o que posso ser além do que já sou. Quero me desvelar a mim mesma e entender na sua total plenitude que tudo que preciso está dentro de mim. Quero poder contar histórias de novas experiências e até mesmo de novos relacionamentos sem o peso do passado marcado pelo divórcio. Contudo, as impressões digitais das crônicas de uma divorciada estarão sempre presentes em tudo que eu escrever e realizar, afinal o nome desse blog é RESET, e o inicio dele conta o marco que fez de mim hoje uma mulher redefinida.

#crônicasdeumadivorciada




Comentários

  1. Perfeito 👏🏻👏🏻👏🏻♥️

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  2. Texto perfeito e fico tão feliz em vê sua transformação o brilho no seu olhar.Seja sempre essa mulher é que através de suas crônicas ajude muitas mulheres .Bjs

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