O dia que sai do esconderijo
Enfim, vou escrever um texto que há muito tempo venho
prorrogando, mas que sempre desejei escrever desde que refleti sobre o assunto.
Eu praticamente me despedi na crônica do dia em que queimei a carta, pois
naquele tempo não imaginava que ainda teria algo para escrever sobre as minhas
experiências pós-divórcio e não é que tinha? Escrevi a crônica sobre como
compreendi que tudo passa e estou escrevendo esta que até agora, neste exato
momento, não sei qual vai ser o nome, mas daqui para o fim acho que já terei um
nome e, se não tiver, vai ficar sem nome mesmo.
O que me fez parar para começar a escrever é que em
torno de dois meses vinha conversando com uma pessoa muito especial e nossas
conversas têm trazido memórias do tempo de muito sofrimento que vivi e que
relatei aqui neste espaço. Porém, mesmo que tenha revivido estas memórias, isso
não é algo ruim porque vejo o quanto avancei, o quanto superei, o quanto
amadureci, o quanto me tornei melhor. Uma das coisas que devo a isso é expor
parte da minha vulnerabilidade para você que está lendo esse texto e que leu todos
os outros ou pelo menos um deles. Uma das coisas que escrevi na primeira
crônica deste blog foi que vivemos em um mundo de aparências nas redes sociais
– onde tudo deve ser perfeito – e temos que ser fortes e nunca desistir, um
mundo sem espaço para a tristeza, para a frustração, sem espaço para ser
vulnerável e, para mim, uma das coisas mais importantes que aprendi com todas
as experiências que vivi após meu divórcio, incluindo ele próprio, é que
“quando eu sou fraco, aí eu sou forte”. Quando me mostro vulnerável eu também
me mostro humana e eu achei bom ser assim. Houve um tempo que não podia me
emocionar e chorar, pois isso vivaria motivo de chacota, entretanto hoje eu não
me importo mais se vão me achar fraca, se choro ou me emociono, quando falo do
meu carinho para alguém, quando conto algo triste da minha vida ou quando
alguém compartilha a sua dor comigo. Isso só me mostra o quanto eu sou sensível
e empática não só com os outros, mas também comigo mesma. Existem momentos em
nossas vidas que precisamos nos recolher e nos acolher, sem nos preocuparmos
com o que os outros irão pensar, apenas viver nossos lutos e ouvir nossas
dores, escutar o que elas têm a dizer para nós, o que elas falam sobre nós
mesmos. Quando nos preocupamos com o que os outros pensam ou somente com o
sofrimento ou necessidade do outro, não temos tempo para nós mesmos e nós
precisamos do nosso amor e cuidado. Em determinado momento da minha vida fiz
isso sem nem ao menos perceber. Um ano após meu divórcio saí da casa onde vivi
todo o meu casamento e fui morar em um apartamento. Escrevi sobre essa saída e
da sensação de liberdade que tive quando tomei a decisão de sair daquela casa.
O que eu não havia percebido é que na verdade eu estava me escondendo, me
recolhendo. Vou explicar isso melhor.
Estou com um projeto novo e para realizá-lo tive que
sair do apartamento em que morei por três anos depois que me separei. Quando
saí do apartamento, ainda fiquei com ele por um mês para reorganizar minhas
coisas. Tive que me desfazer de muitas e como não conseguia me desfazer tudo de
uma vez, mantive o apartamento antigo e fui morar com a minha mãe em um outro
local. Este novo local é bem em uma avenida principal, enquanto o antigo
apartamento ficava a um quilômetro e meio da avenida, sem contar que é próximo
à barreira para sair de Manaus. Enquanto estava mantendo o apartamento antigo
por causa das minhas coisas, tinha que ir lá constantemente para retirar ou
resolver as questões do local, como limpeza pintura etc. Em uma dessas minhas
idas para lá, quando estava fazendo o retorno para entrar na rua onde dava
acesso ao condomínio, eu tive o que vou chamar de insight. Ao olhar para a rua
e sabendo da distância, eu pensei “eu morava em uma caverna!”, eu me escondia!
Um amigo que foi no meu apartamento no dia do meu aniversário em 2019 disse
isso pra mim: “você não mora, você se esconde!”, isso naquele momento não
significou nada para mim, mas o dia em que estava indo ao apartamento para
resolver algo que não me lembro agora, fez todo o sentido para mim! Eu
realmente me escondia, saí de um lugar e fui me recolher onde pudesse curar
minhas feridas, sarar as minhas dores, tratar da minha alma que estava muito
doente, doente de morte! Fui para um lugar onde eu pudesse chorar, sem me
importar se alguém conhecido, alguém que fizesse parte do meu passado tão
doloroso, estaria por perto para me julgar. Fui para a caverna que era muito
longe para receber qualquer visita, mesmo que não quisessem me visitar, mas se
tivessem a ideia e pensassem na distância já era motivo para desistir. Foram
poucos que chegaram a ir lá e os poucos que foram, eram raras as visitas. Eu,
sem ter essa percepção, me isolei e esse isolamento não foi tuim, não foi fácil
mas não foi para minha morte e sim para minha vida! No dia que pensei nisso,
fiquei arrepiada! E pensei em escrever sobre isso, cheguei a compartilhar esse
meu insight com duas amigas e com a minha psicóloga. Isso ainda era no início
do ano, no momento não lembro exatamente o mês ( estou com um sério problema de
memória!).
No início do mês seguinte, quando eu ia entregar o
apartamento, fui fazer a última limpeza. Já não tinha mais nada meu lá e estava
todo pintado. Limpei o chão da mesma forma que fiz quando foi para ir para lá,
estava sozinha. E conforme eu ia limpando cada compartimento, fui me lembrando
de todos os momentos que passei lá, de cada parte do chão que me deitei e
chorei, no quarto, na sala. Lembrei de como voltei a cozinhar sem que isso me
fizesse mal. Me lembrei do chão da sala com páginas da bíblia rasgada, lembrei
do canto do meu quarto, onde várias vezes eu chorei. Lembrei do início da minha
terapia, de como eu estava quando cheguei naquele lugar e agora podia me ver
como estava saindo de lá! Não tive como evitar, chorei pela última vez naquele
lugar, mas não com a dor do início e sim emocionada com minha própria história
e feliz de ver que saí de lá mais viva de que quando eu entrei!
Não olho para aquele lugar com tristeza, pelo
contrário, olho para aquele apartamento com muita, mas muita gratidão mesmo! Sou
grata pelos três anos que passei lá, por tudo que vivi. Aquele lugar para mim,
apesar de ser uma caverna, apesar de ser escondido, foi um lugar de cura, um
lugar de autoconhecimento, um lugar onde pude voltar novamente a viver, após
muitos dias de mortes vividos nele. Dias de morte que valeram a pena viver,
pois não sobreviveu muita coisa da Ana antes do divórcio, mas foi resgatado
coisas da Ana antes do casamento e, além disso, nasceu uma nova Ana, um
nascimento existencial e me agrada muito essa minha nova versão. Portanto não
tenho como olhar para o lugar onde tudo isso aconteceu de forma indiferente.
Esse lugar que morei será um dos mais importantes da minha vida e que detém meu
afeto!
E a grande lição que esta caverna – onde estive por
três anos – deixa é a real necessidade de nos recolher quando estamos feridos,
não um isolamento apenas mas um recolhimento, para cuidar de nós mesmos, ouvir
nossas dores, compreender o que nos traz sofrimento. Obter ajuda de outro sim,
mas de quem realmente pode nos ajudar. Talvez eu até posso extrair mais
aprendizado de tudo o que passei neste apartamento, mas este nunca sairá da
minha mente e do meu coração, que foram gravemente feridos, mas hoje estão
muito bem, obrigada!
Espero que essas histórias que contei aqui realmente
possam ajudar de alguma forma a quem leu ou está lendo! Se isso acontecer me
fará muito feliz!


❤️
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